Ciao, bella
Adoro esta miúda.
Porquê? Sei lá porquê. Foi o Gonçalo que reparou nela a primeira vez. “Olha ali, Zé” disse-me um dia, na Via Manzoni. Falámos os três e percebemos logo ali – nós os dois – que havia algo de engraçado. São coisas pelas quais se dão conta. Coisas que se sentem. Podemos dividir as pessoas de mil e uma formas. Pela altura, largura, cor da pele, tamanho do pé, do peito ou do peito do pé. Podemos dividi-las pelo coração, pelo sentido de humor, pela inclinação para a parvoíce ou pelo compromisso com a estupidez. Mas podemos também dividi-las pelas perguntas que nos fazem. Eu costumo dividi-las entre as que perguntam por aquilo que conseguimos e aquilo que gostamos. Divido-as entre as que me perguntam de onde venho e por aquilo que sou. Divido-as ente as que me perguntam o que consegui com este blogue e as que querem saber o que sinto por ele. E a Sara, num date, ou numa festa qualquer... imagino-a a perguntar-me, não por que papel representava eu na hierarquia do banco, mas pelo meu filme preferido. Não pelos meus conhecimentos aqui ou ali mas pelos meus maiores disparates de infância.
Se calhar é isso mesmo que sinto. Sinto falta que me perguntem pelo filme preferido. Sinto que as pessoas já não querem saber qual é o filme preferido. Mas senti que se houvesse contexto para isso, teria sido por ele – pelo meu filme preferido – que a Sara haveria perguntado.
Hoje, se não se importam, não quero saber o que tem a Sara tem vestido. Não estou sequer a prestar atenção ao facto da Sara – nos últimos dois anos – dedicar uma tarde por semana a aulas “de corte e costura” (curioso como, despreocupadamente, saltou a expressão “alfaiataria”). De se considerar filósofa, mas ter como objectivo ser artesã e confeccionar tudo o que veste. E de me dizer “não percebo, vivo na cidade da moda e todos me parecem tão parecidos uns com os outros”. Isso a mim, neste momento, pouco interessa. Porque deste lado tudo o que me interessa é a alegria que esta miúda me passa e a certeza que, se houvesse contexto para isso, ela ter-me-ia perguntado – não pelas mil coisas que me andam a perguntar há anos – mas aquilo que já ninguém mais pergunta. Pelo meu filme preferido.
[E que pode perguntar aqui]
Por: José Cabral