Tenho, para mim, que a forma como nos vestimos não é mais do que uma forma particular de nos expressarmos.
Uma forma de estar, de se comportar e de comunicar com os outros. E, seguramente, quanto mais amplo e diversificado for o meio em que nos encontrarmos, mais disponíveis e confortáveis nos deveremos sentir, para fazer o que melhor entendermos ou, concretizando a premissa anterior, para vestirmos aquilo que mais nos apetecer.
Numa cidade onde a malha urbana é de perder de vista; a população, jovem; o ambiente, diverso e eclético; e a ambiência racial hiper-diversificada, o receio pela censura ou olhares críticos parece não ter expressão. Como me disse o português em casa de quem tive o prazer de passar o Domingo de Páscoa: “sempre desejei sair à rua de pijama vestido, e sentir que não houvesse quem se dignasse a tomar nota disso”. E, nesse sentido, damo-nos conta que, aqui, a liberdade de cada um parece não terminar na (hipotética) falta de tolerância do próximo. Que o direito à indiferença parece ser a 1ª das emendas constitucionais que cada nova-iorquino traz na sua própria cabeça. E é precisamente isso que faz desta cidade uma das mais inspiradoras que já conheci.
Porque, aqui, o receio pela censura não passa de uma formulação teórica que não parece ganhar forma nas ruas por onde passo. Porque, aqui, o reconhecimento do exibicionismo dá lugar ao direito à indiferença. E é precisamente esse (aparente) detalhe que faz de Nova Iorque um apelo vivo à criatividade e à experimentação. Porque é isso que a torna tão inspiradora.
É que andar por aqui parece ser, em si mesmo, um convite a fazer o que nunca se fez antes. Metermo-nos com quem segue à nossa frente, vestirmo-nos como nunca tivemos coragem de o fazer, comunicarmos com o próximo colando-lhe post-its no corpo, ou o que quer que seja que nunca fizemos antes, mas cuja vontade já experimentámos. Porque, aqui, tudo parece fazer sentido ou, para ser mais rigoroso, nada nos parece sugerir que ele mesmo – o sentido – não possa ser encontrado na mais inusitada das ocorrências.
Aqui, parece haver sentido para a imprensa local publicar artigos sobre onde devemos sair para conhecer gente nova, fazer amigos, dormir acompanhados, arranjar namoradas ou namorados, sair num 1st date, num 2nd, num 3rd, num outro que sirva para pôr fim aos três anteriores, ou ainda um outro onde se decida se ficamos amigos, amantes, compadres ou enteados.
Porque aquilo que poderia parecer absurdo noutra parte qualquer deste estado, país, continente ou planeta, poderá ser visto como o evento mais natural, comum ou prosaico desta ilha. E é esse entendimento tão lato da normalidade que faz com que cada uma desta pessoas tão (aparentemente) diferentes entre si possam conviver sem aparentes clivagens ou diferendos. E é essa concepção alargada daquilo que temos por normalidade que faz com que fotografar estranhos na rua seja um acto tão (ou tão pouco) normal como outro qualquer.
Porque tudo aqui parece encaixar na normalidade. Normal como a Sarah se plantar ao meu lado numa paragem de autocarro. Normal como pedir-lhe que me explicasse porque raio não paravam os números para ali designados. Normal como perguntar-me se eu era fotógrafo. Normal como responder-lhe:
- Não sou. Mas já que perguntas, porque não aproveitas as golas do teu casaco (cujo padrão bem poderia ser um dos que levo para o trabalho) para te proteger do vento?
Normal como usar o retrato de uma francesa, que foi atrás do marido, para ilustrar um texto sobre Nova Iorque. Normal como sugerir tirar uma fotografia a um estranho. Normal como limitar-me a ouvir (com a frequência que não ouvi em nenhuma outra cidade) aquela que eu sempre imaginei ser a mais espontânea e sincera de todas as respostas:
- (sim ou não, tanto faz) Obrigado.
Obrigado pelo elogio.
O Alfaiate Lisboeta
Por: José Cabral