Com uma nova loja prestes a abrir em Nova Iorque, conversámos com Sally Perrin, a elegante ex-modelo que, ao lado do marido, torna a centenária Perrin Paris num verdadeiro caso de sucesso dos nossos dias.
É uma das mulheres mais elegantes da cidade-luz e as suas criações tanto são usadas por estrelas de rock, como chegam às páginas de revistas como a Número, Madame Fígaro ou Harper’s Bazaar.
Começou a trabalhar na Perrin Paris apenas em 2008. Qual foi o seu percurso até à data?
Perrin foi lançada em 1893, como peleira e produtora de luvas. O Michael, meu marido, optou por relançar esta marca familiar em 2006, com uma colecção-cápsula de carteiras. Nessa altura, a minha grande ocupação foi a nossa mudança para Los Angeles, depois de dez anos a viver em Paris. Durante essa década, eduquei duas filhas e tive um negócio de antiguidades. Antes disso, trabalhei durante 10 anos como modelo nos Estados Unidos, Tóquio e Europa. Só depois de nos instalarmos em Los Angeles é que me foquei na Perrin Paris. Comecei por editar a colecção e torná-la mais coerente. Interessei-me pela procura de peles e suas propriedades. Ao longo do tempo, a linha acabou por reflectir o meu estilo. O Michael acreditou na minha intuição. Desde aí, Perrin Paris mantém-se um affair familiar.
As carteiras e luvas Perrin Paris vivem de um design bastante invulgar. Como cria estas silhuetas?
Muitos dos desenhos originais mantêm-se. Vi potencial nas suas formas e optei por apenas aperfeiçoar esses modelos. Guardámos todos os protótipos e é reconfortante ver o quão longe chegámos. Acho também que deve haver sempre uma certa influência da luva nas nossas colecções, o que faz com que as carteiras sejam geralmente pensadas como uma extensão do braço ou da mão. Além disso, adoro o casamento entre materiais mais orgânicos, como a lã ou a madeira, e o cabedal. Acredito que uma carteira deve ser funcional, mas também motivo de conversa. As nossas carteiras são sempre criadas com formas únicas, em materiais lindos, sempre discretas e geralmente sem logótipos. É o design que fala e não a etiqueta.
Sendo um negócio de família, como é que uma ideia se materializa numa peça?
Começo por imaginar uma carteira que eu gostaria de usar e transmito essa mensagem a um ilustrador. Depois, envolvo no processo o Michael e a nossa filha Clothilde, de vinte e um anos, que está a estudar design de Moda, em Paris. O Michael dá-nos o lado técnico e a nossa filha a abordagem fresca. Nos meses seguintes, ou, por vezes, um ano, essa ideia passa de unidimensional a 3D, com a ajuda do nosso modelista. Acho que não se deve apresentar nada até estar au point. A pele é escolhida no final, dependendo do tamanho, estilo e funcionalidade da peça.
Sendo a marca de 1983, como faz para não cair no cliché de tantas marcas e apenas reinventar modelos já existentes?
Uma empresa deve respeitar a sua história, mas nunca servir-se apenas disso. No entanto, ainda acredito em sapatos e luvas a condizer com uma carteira e gosto de oferecer esta opção aos nossos clientes, se bem que com uma abordagem moderna. Muitas das nossas carteiras são estruturadas e femininas, mas com um twist interessante. Fazemos a ligação entre o passado e o futuro, criando modelos únicos e inteligentes, em peles fabulosas escolhidas a dedo. Trouxemos o savoir fair do trabalho da pele para os nossos dias e criámos uma linha para mulheres modernas, que apreciam acessórios que passarão o teste do tempo.
Quando a Perrin Paris foi fundada, as luvas faziam parte integrante do guarda-roupa da mulher. Hoje em dia já não é assim. Que conselho daria a alguém que quer incorporar estas peças, de forma moderna, no seu dia-a-dia?
As luvas, muitas vezes esquecidas nos dias de hoje, são relevantes se tidas mais como um acessório divertido do que uma necessidade. Veja, por exemplo, as nossas versões sem dedos. Explicamos aos nossos consumidores que umas luvas longas pretas podem sofisticar uma t-shirt e uns jeans, ou trazer alguma atitude a um vestido de noite. São versáteis e inesperadas. A nossa luva Spider foi usada por muitas celebridades e estrelas do rock. Os modelos mais clássicos são sempre animados com detalhes como folhos ou uma fivela.
É conhecida por ser uma das mulheres mais elegantes de Paris. Qual o segredo do seu estilo? Onde faz as suas compras? Quais os faux pas?
Honestamente, acredito que o segredo é editar. Um closet e livro de endereços bem editados são essenciais. Manter tudo simples e bem escolhido. Mais concretamente, compro roupa que tenha uma estética semelhante às minhas carteiras. Ou seja, peças únicas, com linhas arquitecturais, em tons neutros lindos. Gosto de Yohji Yamamoto, Jil Sander e Margiela. Para comprar, ocasionalmente, peças vintage vou a leilões, no Hotel Drout; à Decades, em los Angeles; ou à Neila, em Paris. Em relação aos faux pas, uma mulher vestida elegantemente nunca masca pastilha ou fuma enquanto anda na rua. Também acredito que collants nude não fazem qualquer sentido.
Depois de Beverly Hills e Paris, preparam a abertura da vossa nova boutique em Nova Iorque. Podem desvendar um pouco do projecto?
Encontrámos um local fantástico no Upper East Side, em Manhattan. Acredito que, para existir em termos de Moda, tem de se estar em Nova Iorque. Foi sempre um sonho para nós. Mal posso esperar pela hora de cortar a fita no dia de inauguração. Uma fita no bordeaux-assinatura da Perrin Paris, claro!
As suas casas de Los Angeles e Paris, desenhadas por Chahan Minassian, são constantemente fotografadas para as principais revistas de decoração. Sei que o projecto da nova loja é também deste decorador. Qual a vossa relação?
Entrei na galeria de Chahan pela primeira vez em 2004 e tive um verdadeiro choque. Finalmente tinha encontrado um designer que me moveu por completo. Para além de ser extremamente talentoso, é um dos trabalhadores mais profissionais do meio. Somos ambos Capricórnios e eu compreendo a sua necessidade de estar presente em todos os passos do processo.
Como mentora criativa da Perrin Paris, qual a parte do seu trabalho que a deixa mais feliz?
O maior elogio é quando uma cliente vem a uma das nossas lojas pela primeira vez e fica maravilhada ao descobrir a elegância e originalidade dos nossos modelos. Ouvimos várias vezes “não sei qual escolher pois levaria todas para casa”! Fico sempre com um sorriso no rosto.
Por: Manuel Arnaut