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São Paulo Fashion Week: balanço final

Talvez porque coincidiu com o pontapé de saída dos desfiles da Alta Costura, em Paris, as coleções do São Paulo Fashion Week continuaram fortes em teatralidade.

Numa mistura de Lacroix com um pouco de McQueen, com modelos de poses exageradas e criações ultra dramáticas, Lino Villaventura inspirou-se em Francis Bacon para fechar o dia três com vestidos compridos e de volume XL, repletos de aplicações de brilhantes e cobertos por capas orientais. Talvez a padecer do complexo da gralha, atraído por tudo o que reluz, o público respondeu efusivamente aos looks que o site do São Paulo Fashion Week descreve como “mais carnavalescos”. Este foi também o mood do desfile de André Lima, que encerrou a SPFW com inspiração asiática, vestidos cauda de sereia, misturas de padrões, folhos e todos os elementos que o põem a anos-luz de uma estética minimal.

Apesar de tudo, a segunda metade do evento foi também a altura para revelar boas coleções. A primeira surpresa chegou pela mão da Colcci que, apesar do histerismo generalizado (e talvez provinciano) devido à presença de Ashton Kutcher na sua primeira fila, conseguiu superar as expectativas com propostas bem cool e modernas. O destaque vai para uma saia de pregas em pele, que parece reinventar as linhas dos anos cinquenta, e o excelente trabalho realizado em malhas XL.

As malhas foram também um dos pontos altos do desfile de Juliana Jabour, que apresentou uma coleção hiper feminina e sensível, com detalhes preciosos (pontos extra para os bordados subtis onde se lê Naïve Chic).  Com uma silhueta inspirada nos anos 20 e 60, a marca aqueceu a sempre gelada sala de desfiles (sim, referimo-nos ao ar condicionado sempre a roçar temperaturas árticas) com açafrão, laranja, nude, amarelo e um irresistível estampado equestre que parece decalcado de uma pintura rupestre.

Nos últimos três dias, foi também altura para as marcas brasileiras mostrarem ao mundo aquilo que as pode tornar diferentes. Para combater a competição do eixo Paris-Milão-Nova Iorque-Londres, os designers locais devem nutrir e fortalecer o ADN que os fará uma carta fora do baralho. No desfile de Gloria Coelho, repleto de roupas muito bem executadas, aconteceu isso mesmo. O que nos prendeu a atenção? Os vestidos gráficos que brincaram com transparências, as criações longas, feitas com centenas de círculos de tecido e os sapatos combinados com meias com faixas de cor laterais.

Como a imprensa internacional comentou tantas vezes, tudo se torna mais interessante quando, na essência destas marcas, se nota uma “brasilaridade” que faz com que tantos editores venham a esta semana de Moda com tantas expectativas. E é até um pouco triste ouvir Alexandre Herchcovitch dizer que a sua coleção não tem nada de brasileira e foi feita para qualquer parte do mundo.

Felizmente, outros casos souberam injetar com sucesso, nas suas coleções, a tropicalidade que nos faz render à estética deste país. Há como dizer não à femme fatale de Fause Haten, vestida com criações esvoaçantes, ou saias compridas de lantejoulas, com folhas de palmeiras e flores tropicais? Não há com certeza, assim como também não resistimos às propostas de Maria Bonita, um dos ex libris do evento. A inspiração da diretora criativa Danielle Jensen foram os “boiadeiros, castanheiros, índios, seringueiros e marisqueiros” a quem a designer pediu licença “para conhecer os seus saberes e fazeres”. Isto resultou numa coleção moderna e apetecível, onde Jensen explorou ao máximo a potencialidade dos materiais que tinha à mão. Por exemplo, os coordenados que parecem de lã são, afinal, compostos por um fio que é escovado diversas vezes até conseguir a textura felpuda. As saias e vestidos de franjas rígidas apresentadas no final da colecção são em tiras de paillettes cortadas. O print tropical, esse não tem história, e surge especialmente apelativo em coletes e casacos XL.

É caso para dizer, olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça…

Por: Manuel Arnaut
 
 
Quinta-Feira, 26 Janeiro 2012
 
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